Tragédia anunciada

“Somos a água, e não o diamante duro, / a que se perde, não a que repousa.”
(Jorge Luis Borges)

No paraíso tropical brasileiro, sem terremotos, guerras, maremotos ou furacões, a grande tragédia é a chuva. Enquanto ainda contabilizamos os mortos das enchentes provocadas em São Paulo e, mais recentemente, no Rio de Janeiro, a imprensa busca culpados. Quem tem mais responsabilidade pelos deslizamentos? O governo do Estado, o governo federal, as prefeituras ou os próprios moradores?

O fato é que, ao ignorarmos todos os alertas da mãe natureza, estamos rumo a um projeto kamikaze. Achar que o aquecimento global e a mudança climática são preocupações apenas de eco-chatos significa escrever a crônica de uma tragédia anunciada. Há tempos a natureza manda sinais que o homem ignora ao desenvolver cidades que poluem rios, ao abandonar obras fundamentais de infra-estrutura e ao desrespeitar a inclinação das encostas para construir favelas ou mansões – caso das pousadas e condomínios de luxo em Angra dos Reis (RJ).

É obrigação do governo impedir a construção de moradias em áreas de risco, remover as famílias para locais seguros e construir conjuntos habitacionais. Além disso, identificar a rota de escoamento da chuva e construir canais para passagem da água em direção ao mar e aos rios, bem como muros de contenção de enxurradas. É papel das prefeituras impedir a impermeabilização desordenada do solo, limpar as tubulações e realizar obras preventivas das inundações.

Reportagem recente da Istoé Dinheiro (edição de 14/04/2010) mostra que obras de infra-estrutura, dragagem e construção de galerias, no Rio de Janeiro, custariam menos que a reforma do estádio do Maracanã, ou seja, R$ 400 milhões. Neste momento, não estaríamos contabilizando mortos na lama. Não existe um governo exclusivamente culpado pela tragédia, mas uma coisa é clara: não dá para culpar São Pedro.

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