Ninguém mata por amor
Autora de um livro sobre os grandes crimes passionais cometidos no Brasil, a procuradora de Justiça revela que esses homicídios não têm nada a ver com paixão. Ela explica por que os homens matam mais e ensina a decifrar os sinais da violência antes que ela aconteça.
A procuradora de Justiça do estado de São Paulo Luiza Nagib Eluf, 47 anos, lida com a violência contra a mulher diariamente. Durante 20 anos de carreira pública, ela se especializou na área criminal e publicou livros e artigos sobre o tema. A inspiração para seu terceiro e mais recente título, A Paixão no Banco dos Réus (Editora Saraiva), veio de um crime cometido há pouco mais de dois anos: o assassinato da jornalista Sandra Gomide por Antônio Pimenta Neves, na época diretor do jornal O Estado de S. Paulo. “Não acreditei naquilo: os homens ainda matavam suas mulheres em pleno ano 2000!”, Lembra. “Pimenta, como tantos outro homicidas passionais, é produto d nossa sociedade, e o que é pior: a Justiça do país, que historicamente perdoou mais os homens do que os puniu.” No livro, Luiza relata e examina 14 crimes famosos – como o da socialite Ângela Diniz (1976), o da cantora Eliane de Grammont (1981), o da atriz Daniella Perez (1992) e o de Sandra. Em uma semana, os 4 mi exemplares da primeira edição se esgotaram. Luiza recebeu CLAUDIA em sua casa em São Paulo, onde vive com o marido e os dois filhos.
Claudia – Não é um contra-senso matar alguém que se ama?
Luiza Eluf – O ato de assassinar não tem nada a ver com o amor nem com a paixão. Pelo contrário. É uma atitude contra a rejeição. No começo do relacionamento há paixão, amor. Se alguém chega a ponto matar, é porque tem ódio. Se você ama, não mata. Não adianta dizer o contrário.
Claudia – Quem comete mais crimes passionais? O homem ou a mulher?
Luiza Eluf – É uma conduta típica masculina. Dos 100 casos que estudei para o livro, apenas dois foram cometidos por mulheres.
Claudia – Por que?
Luiza Eluf – O sentimento de posse em relação à outra pessoa – seja a pose econômica, sexual ou psicológica – está sempre presente nos crimes passionais. E esse sentimento é mais comum no sexo masculino. É como se a mulher devesse ao homem alguma obrigação. Isso é uma bobagem até perante a lei. Desde a Constituição de 1988 a mulher igualou-se ao homem.
Claudia – É possível existir igualdade quando a mulher depende financeiramente do homem?
Luiza Eluf – Não importa se a mulher trabalha fora ou não. O que importa é se ela é ou não submissa ao homem com quem convive. Muitas mulheres trabalham fora, mais que o marido, e têm uma tremenda dependência psicológica dele. Conheço muitas pessoas assim.
Claudia – A mulher submissa é mais vulnerável ao crime passional?
Luiza Eluf – Sim. E também a outras práticas de violência doméstica, como espancamento e estupro. Essa mulher impõe menos respeito, e o sujeito a considera um objeto que pertence a ele. Todos que mataram achavam que a mulher lhes pertencia, que tinham dado a ela dinheiro ou status social. Só que ninguém dá nada de graça.
Claudia – A senhora não acha que a submissão feminina é glamourizada nos programas de TV?
Luiza Eluf – Muito! Eu sei o que esses autores de novela têm na cabeça. A Jade, de O clone, por exemplo, passava o dia todo no quarto esperando um homem. Não fazia nada, não trabalhava nem dentro nem fora de casa.
Claudia – Como são as mulheres que cometem crimes passionais?
Luiza Eluf – Elas não planejam matar. Se chegam a esse ponto, é porque perderam o discernimento. A mulher evita o confronto, é mais frágil que o homem fisicamente. A arma raramente lhe pertence, e sim ao morto.
Claudia – A senhora não mais complacente com as mulheres?
Luiza Eluf – Não. Apenas digo que a mulher não mata por honra. Ela mata por motivos diferentes. Normalmente, para ficar com o dinheiro do marido, para receber um seguro dele.
Claudia – A mulher tem uma parcela de culpa no crime passional?
Luiza Eluf – Sem dúvida. Porque hoje ela tem condições de dizer não. Além disso, esses relacionamentos são uma espécie de mão dupla. Não que ela procure a morte. Mas entrou no jogo do homem.
Claudia – Dá para identificar o homicídio passional antes do crime?
Luiza Eluf – Em geral ele tem mais de 30 anos. A partir dessa idade, o homem costuma se tornar inseguro em relação à parceria, principalmente se ela for bem mais jovem. Se um homem de 60 se apaixona por uma de 30… enlouquece por aquela relação. A auto-afirmação social se torna muito mais importante que o próprio casamento ou namoro. Ele exibe a moça ao redor como quem diz: “Viu como ainda sou garanhão?” É uma receita tremendamente explosiva. Outro fato importante é que esse crime é sempre premeditado. Todos dão sinais, mas a mulher nunca acredita.
Claudia – Que sinais?
Luiza Eluf – Pegue o caso do jornalista Antônio Pimenta. Ele já vinha planejando matar Sandra Gomide. Havia invadido tempos antes o apartamento dela para agredi-la. Tanto que ela fez até boletim de ocorrência. O pessoal do jornal O Estado de S. Paulo Arrumou um psiquiatra para ele antes do crime. Não adiantou, porque foi premeditado.
Claudia – O assassinato da atriz Daniella Perez também foi premeditado?
Luiza Eluf – O caso dela é atípico. Nunca houve namoro entre ela e Guilherme de Pádua. O que aconteceu foi que, sem querer, Daniela colocou em risco o casamento dele com Paula Thomaz. Daniella era uma pessoa legal, compreensiva, e o Guilherme era obcecado por ela. Ele acabou falando isso para a esposa, os dois imaginaram que a relação estava ameaçada e planejaram o crime.
Claudia – A Daniella poderia ter previsto essa reação do colega?
Luiza Eluf – Nesse caso, não.
Claudia – Que conselhos senhora dá a quem vê sinais de que o companheiro pode cometer um crime passional?
Luiza Eluf – Acredite no pior e se proteja. Faça um boletim de ocorrência, procure a polícia, suma por uns temos. Há em alguns estados as casas-abrigo para mulheres. Elas podem ficar lá com os filhos. O erro de Sandra Gomide foi não ter pegado a mala e ido para o exterior aos primeiros sinais. Não se pode deixar ninguém ter controle sobre a nossa vida. Algumas mulheres acham bonito dar satisfação ao marido: avisam que vão chegar em casa em dez minutos, mas antes vão fazer isso e aquilo. Agem assim para lhe agradar antes de casar. Mas, quando casam, descobrem que cultivam um inferno.
Claudia – O que é pior para o homicida passional: ser traído ou abandonado?
Luiza Eluf – Ser traído. Os homens, principalmente, têm pavor. Isso ofende os machistas.
Claudia – A legítima defesa da honra ainda é usada como argumento?
Luiza Eluf – Nenhum advogado que preze sua dignidade alega isso hoje. Esse tipo de defesa deixou de ser usado há uns 15 anos, porque as mulheres começaram a protestar. No caso de Lindomar Castilho (que em 1981 matou a tiros a ex-mulher, a cantora Eliane de Grammont), eu estava lá: no julgamento havia uma platéia feminina indignada com a situação. Apesar disso, muitos, homens já foram absolvidos pelo júri por legítima defesa da honra. Isso nunca ocorreu com as mulheres. Hoje a tese preferida dos advogados dos criminosos passionais é a violenta emoção. Isso até ode acontecer. Mas, cá entre nós, é bem difícil alguém ser surpreendido por uma traição.
Claudia – O criminalista Evandro Lins e Silva, defensor de homicidas famosos, como Doca Street (playboy que em 1976 matou a namorada a socialite Ângela Diniz m Búzios, RJ), declarou no livro O Salão dos Passos Perdidos que, com o divórcio, ficou mais fácil solucionar os casos de traição – basta se separar e pronto. A senhora concorda?
Luiza Eluf – Não! O problema não é a falta de mecanismos para pôr fim a uma relação. Tanto que muitos mataram mulheres com quem nem eram casados. Sabe o que eu acho que tem que ser revisto? A fidelidade. As pessoas têm de entender o que é a sexualidade. A sexualidade não é fiel. Quando mais longo for um relacionamento, mais sujeito estará a influencias. A fidelidade é inexigível. Temos de parar com esse tormento de que é preciso ser fiel. È claro que ninguém quer que o companheiro tenha outra! Mas você não pode obrigar ninguém a ficar apaixonado pelo tempo que quiser.
Claudia – Alguns casais praticam na cama jogos sexuais que podem ser considerados violentos. Essas práticas os aproximam de um crime passional?
Luiza Eluf – A sexualidade tem de ser praticada em termos de igualdade. Vejo que, quando há esses jogos, quase sempre o homem está no comando, ele decide à hora em que vão para a cama. Para a mulher, raramente é vantajoso.
Claudia – Alguém citado no livro lhe procurou depois do lançamento?
Luiza Eluf – Sim. O filho do marido da Doria Duval. Ligou defendendo o Pai (o cineasta Paulo Sérgio Alcântara, morto por Dorinha em 1980), dizendo que ele era um amor de pessoa, que Dorinha era louca. Mas está certo. Era o pai dele. Eu disse que, se ele quisesse fazer uma declaração, a publicaria na segunda edição do livro. Mas ele não quis. A Glória Perez falou que o caso da filha não era passional e sim premeditado. Daí eu expliquei que o fato de ser passional não tem incompatibilidade com ser premeditado. Pelo contrário: faz parte da regra.
Claudia – O crime passional vai acabar um dia?
Luiza Eluf – Só quando os Homens se convencerem de que as mulheres têm os mesmos direitos e poderes. Mas difícil, por mais que agente mude a legislação. Veio um dia o cara do IBGE aqui em casa e perguntou: “Quem é o chefe da família?” Respondi que era eu. Aí ele perguntou: “A senhora não tem marido?” Disse que sim, mas que eu também era chefe de família. Passei um pito, expliquei que não existe mais isso! Não tem mais essa de quem é o chefe. O chefe são os dois.
Revista: Claudia
Data: 10/2002
Pagina: 27
Entrevista: Luiza Nagib Eluf
Por: Adriana Dias Lopes.






