Paixão Condenada

Livro inédito de procuradora de justiça, antecipado com exclusividade por Gente, radiografa os 14 crimes passionais mais famosos do País, cria polêmica entre parentes das vítimas e conclui que o que motiva crime passional é a relação de poder do assassino com a vítima

“Matei por amor.” A frase saiu, dramática, da boca do paulista Raul Fernandes do Amaral Street, o Doca Street, e foi dita à imprensa. Horas depois de um julgamento e sob aplausos, Doca caminhou sem culpa pelo chão de um tribunal de Cabo Frio (RJ), em 1979. Fora absolvido do assassinato da namorada Ângela Diniz, com três tiros no rosto e um na nuca. Dois anos depois, a promotoria recorreu e o slogan “quem ama não mata”, repetido à exaustão por militantes feministas que acompanhavam o segundo julgamento, foi decisivo para a vitória contra a impunidade. Em decisão histórica, transmitida pela tevê, Doca foi para a cadeia. Desde então, os crimes passionais passaram a ser julgados com um olhar menos machista. Em seu primeiro julgamento, Doca alegou “legítima defesa da honra”, por sentir-se traído pela companheira. Como ele, até meados do século passado, criminosos foram absolvidos baseando-se nesse argumento, pelo qual o homem podia ser perdoado por executar a mulher adúltera. O pai da atriz Maitê Proença, que matou a esposa, Margot Proença, valeu-se da mesma idéia machista para ser absolvido.

A história de Doca Street e a do pai de Maitê foram pesquisadas pela procuradora de Justiça do Ministério Público de São Paulo Luiza Nagib Eluf. Em três anos, ela levantou os 14 crimes passionais mais famosos do País e os reúne no livro Paixão no Banco dos Réus, que será lançado em 10 de junho pela Editora Saraiva. “A paixão que denota o crime passional é crônica, obsessiva e nada tem a ver com amor”, diz ela. “Pode ter havido amor em algum momento, mas o que mata é o ódio, o ciúme doentio, a possessividade, a sensação de poder em relação à vítima.”

Antes de chegar às livrarias a obra, antecipada com exclusividade por Gente, já causa polêmica. A escritora Glória Perez, mãe da atriz Daniella Perez, morta em 1992, com 18 facadas dadas pelo ator Guilherme de Pádua – que contracenava com Daniella e cujo personagem era apaixonado pelo de Daniella – e a então mulher dele, Paula Thomaz, diz que o crime contra sua filha não é passional, como foi citado no livro. “Crime passional é cometido sob violenta emoção. Nesse caso, no dia do crime, o assassino estava gravando e perguntou ao produtor que espaço de tempo teria entre um cenário e outro”, diz Glória. “Depois, busca a mulher em casa, a esconde sob um lençol, adultera a placa do carro, espera Daniella na saída do estúdio e a embosca num posto de gasolina. Quer dizer: preparou-se o dia todo para ter um descontrole com hora marcada?”

A procuradora diz que, no caso de Pádua, apesar de não haver envolvimento comprovado, ele era obcecado por Daniella, sentiu ódio e quis eliminá-la. “Em geral os assassinos não se descontrolam de repente, já estavam cogitando a violência. Todos os crimes passionais que citei foram premeditados. Pode haver a ‘violenta emoção’ (presente no artigo 121 do Código Penal) que ameniza a pena, mas é raro”, diz.
Quando não premeditado, o crime passional é cometido por uma pessoa em um estado de extrema emoção e que, segundo o psiquiatra Sérgio Rigonatti, do Instituto de Psiquiatria da USP, pode durar até 24 horas: “O teor da crítica cai, a pessoa perde a referência e age como animal”. Mas a autora do livro enfatiza: “A paixão só serve para explicar o crime, não para perdoar”.

A procuradora diz que, no caso de Pádua, apesar de não haver envolvimento comprovado, ele era obcecado por Daniella, sentiu ódio e quis eliminá-la. “Em geral os assassinos não se descontrolam de repente, já estavam cogitando a violência. Todos os crimes passionais que citei foram premeditados. Pode haver a ‘violenta emoção’ (presente no artigo 121 do Código Penal) que ameniza a pena, mas é raro”, diz.
Quando não premeditado, o crime passional é cometido por uma pessoa em um estado de extrema emoção e que, segundo o psiquiatra Sérgio Rigonatti, do Instituto de Psiquiatria da USP, pode durar até 24 horas: “O teor da crítica cai, a pessoa perde a referência e age como animal”. Mas a autora do livro enfatiza: “A paixão só serve para explicar o crime, não para perdoar”.

O perfil do assassino

• Na maior parte das vezes nunca matou ninguém e sua conduta violenta é, principalmente, em relação a uma mulher específica. Dificilmente mata mais do que uma vez. O criminoso forma uma combinação explosiva com uma determinada parceira.
• A receita da tragédia: homem mais velho e mais rico do que a parceira, inseguro, ciumento, possessivo, vaidoso e egoísta, relacionado-se com mulher mais jovem, que não reage, mas sabe manipular os sentimentos do cônjuge.
• Quando a mulher reage e decide pôr ponto final na relação, ele pede de volta objetos dados como presente. Incrédulo, pois se considera dono da mulher, tira a vida dela. Às vezes, não suporta a perda da amada e, depois do crime, comete suicídio.

* Fonte: procuradora Luiza Nagib Eluf e advogado Márcio Thomaz Bastos

Os sete casos mais antigos

• Dilermando de Assis mata Euclides da Cunha
A história virou minissérie (Desejos) da Globo, estrelada por Vera Fischer. Autor de Os sertões, Euclides da Cunha tentou matar o tenente do Exército Dilermando de Assis, amante de sua mulher Anna da Cunha, mas foi alvejado por Dilermando e morreu, em 1909, no Rio. O tenente foi absolvido (na foto, o velório no necrotério).

• Pontes Visgueiro mata Maria da Conceição
Desembargador de 62 anos estava apaixonado pela prostituta Maria da Conceição, de 17 anos, e movido pelo ciúme matou-a com um punhal. O crime aconteceu em Pernambuco em 1873 e Visgueiro foi condenado à prisão perpétua.

• José Sampaio mata José Almeida Júnior
Famoso pintor, à época, José Almeida Júnior foi morto, em 1899, em São Paulo, por uma facada desferida pelo primo, José Sampaio, quando este descobriu uma carta de amor escrita pela esposa, Maria Gurgel, ao parente. Sampaio foi absolvido.

• Zulmira Galvão Bueno mata Stélio Galvão Bueno
Em 1950, Zulmira Galvão Bueno matou com dois tiros o marido, Stélio Galvão Bueno, ao descobrir que ele lhe era infiel. Mas foi condenada a apenas dois anos de prisão.

• Alberto Bandeira mata Afrânio de Lemos
O aviador Alberto Bandeira nunca admitiu a autoria do assassinato do bancário Afrânio de Lemos, ex de, até então, sua namorada Marina Costa, em 1952. Condenado a 15 anos, cumpriu mais da metade da pena e obteve o livramento condicional.

• Leopoldo heitor mata Dana de Teffé
O advogado Leopoldo Heitor viajava de carro com sua cliente, Dana em 1961. Segundo ele, foram assaltados e ela desapareceu. Condenado a 35 anos, ficou preso por nove, mas foi absolvido.

• Um amor Homossexual
O dentista J.G.E.D. (os nomes foram preservados) estava com ódio do namorado, o advogado A.J.M.,
que queria trocá-lo por uma mulher. Matou-o com facadas e o decapitou em 1986. Condenado a 15 anos, suicidou-se.
Fonte:

Revista: Istoé Gente
Data: 03/06/2002
Pagina: 54
Entrevista. Luiza Nagib Eluf
Por: Juliana Lopes
Colaborou Luís Edmundo Araújo

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